sábado, 10 de março de 2012

O Cachorro que Não Ouve o Assobio


É fato que comportamento gera comportamento, parafraseando a lei de Newton onde toda ação gera uma reação.
Entre as incontáveis diferenças observadas no comportamento indiano, durante o mês que vivi na Ásia, uma bem curiosa, em relação ao nosso, foi o fato de que eles não sabem ou não têm o costume de assobiar.
Descobrimos isso por acaso. Estávamos em cinco brasileiros, e durante as palestras que fazíamos sobre o Brasil, sempre brincávamos ao final da apresentação de cada membro, aplaudindo e assobiando alto, externando a tradicional alegria brasileira, que os indianos, carinhosos como sempre, viam com admiração e espanto, pois parecia algo novo pra eles.
O engraçado era que ao final das explanações, aglomeravam-se indianos pra que nós os ensinássemos a assobiar, o que confirmou a teoria de que indiano não assobia.
Mas o mais curioso não foi isso.
Não era tão comum encontrarmos cachorros em meio à diversa fauna urbana da Índia, mas quando isso ocorria, pra nossa surpresa, os cães não atendiam aos nossos assobios!!! Assobiávamos de todas as formas e os danados sequer se moviam! Muito estranho esses animais não se manifestarem pra algo que, ao nosso ver, é nato.
Osho diz em seu comentário sobre o livro Os Sete Vales, que o cachorro já nasce com toda sua “cachorrez”. E pra nós ocidentais um cachorro atender ao assobio é algo instintivo. Existe até apito feito só pra cachorro ouvir. Soa engraçado agora esse apito.
Uma grande sorte foi ter como nosso líder nesta viagem à Índia, o psicólogo Gutemberg Henrique da Costa, a quem hoje tenho como amigo. Nas diversas conversas que tivemos comparando os comportamentos dos povos dos dois países, ele nos falou sobre a teoria do Comportamento Adquirido, exemplificando a diferença entre o cachorro brasileiro que responde aos assobios, e o cão indiano, que ignora, não sabe o que é, pois nunca ouviu.
Pois bem, o ponto que quero abordar nesse post, remete à Caverna de Platão, teoria do filósofo grego que, resumidamente, fala de povos que habitavam cavernas, sem contato com o mundo exterior, e acreditavam que todo o mundo, fosse apenas aquilo que fazia parte do cotidiano dentro dessa espécie de clausura.
Mesmo com todo processo de globalização que vem acontecendo atualmente, ainda vivemos em espécies de cavernas, onde barreiras geográficas, sociais, tecnológicas, culturais, psicológicas e mais uma série de outras, criam um ambiente onde a maioria dos seres que ali habitam crê que o mundo se restringe ao pequeno universo limitado por essas fronteiras.
Vi claramente isso nessa expedição à caverna indiana. Crenças, hábitos, costumes e tradições que só fazem sentido aos que têm raízes em comum, e dão o direcionamento para o convívio em comunidade.
Trazendo essa teoria pro nosso cotidiano, temos nosso comportamento moldado diariamente, muitas vezes sem darmo-nos conta.
No Brasil fomos catequizados desde o nosso descobrimento. Depois nossa forma de colonização esculpiu o povo que somos hoje. E esta construção de identidade nacional é algo contínuo, influenciado principalmente pelas grandes mídias e as religiões. Quando estes dois fatores não se fundem, e passam a atuar em conjunto.
Um exemplo fútil, mas que pode ajudar aos que ainda caminham na superfície a entender melhor é o fato do maior grupo de comunicação brasileiro, a Rede Globo, ter perdido o direito de transmitir as Olimpíadas deste ano, que acontecem em Londres, para a Rede Record.
A Globo direcionou seu espaço de esportes para o UFC e suas lutas marciais, e o nosso tradicional futebol, ignorando nossos campeões olímpicos. Os ídolos e exemplos construídos são Anderson Silva, Minotauro, Vitor Belfort, entre outros lutadores, no lugar de César Cielo, Maurren Maggi, Robert Scheidt, e demais medalhistas.
Não quero fazer juízo de qual esporte é melhor, ou qual idolatria é mais saudável, apenas quero nesse exemplo, mostrar como a mídia influencia nossa cultura.
Comparem a cobertura dada pela Globo aos Jogos Panamericanos do Rio em 2007 e agora ao Pan do México ano passado. Muitos dos leitores devem estar se perguntando: Que Pan do México? Como a grande mídia não cobriu, parece que não aconteceu.
Este pequeno exemplo é pra ilustrar como nossos valores são influenciados pelo ambiente. O modelo ocidental, que já contaminou o oriente, de acumular riqueza e patrimônio, pra galgar posições de destaque social, é alimentado pela indústria da publicidade. Somos convencidos de que os mais felizes são os que têm o melhor carro, a maior casa e a grife mais cara. Mesmo que pra isso algumas vezes tenham que violar os valores de maior valor. É racional uma simples bolsa custar mais que uma casa?
Quero falar dos nossos hábitos de consumo em outro post, mas eles nos criaram e ainda criam dilemas sociais e também estão nos trazendo cada vez mais problemas ambientais.
É muito difícil resistir às tentações do TER. Pra muitos o TER é mais importante que o SER. E o dilema do Hamlet atual muda para: TER ou não TER, eis a questão!
O caminho do autoconhecimento é difícil, pois somos bombardeados a todo momento por estímulos e mensagens que nos alienam.
Mas temos que estar sempre atentos. Alguém pode estar assobiando e nós não estamos ouvindo...

Um comentário:

  1. Não posso deixar de compartilhar o comentário sobre este post do amigo Gutemberg em seu Facebook. Como sempre esclarecendo e completando as lacunas. Isso é sorte!!!

    " My friend 'Suuuzzza', parabéns pelo blog!
    É uma honra ser citado em seu blog que acabo de conhecer, ainda mais como amigo. Pra mim o espanto do assovio veio quando estávamos na casa do Gokul... Eu na sala e vcs nos quartos, então me pediram pra chamar vcs e assoviei naquele momento... então os filhos queriam porque queriam que fizesse novamente e toda vez haha, pq gostaram de nossa comunicação prática rs. Então em todo lugar pediam pra fazer, tanto que procuramos ensiná-los. E assim associamos porque os cachorros não eram sensíveis ao som do assovio, o que por sinal foi interessante e havia me esquecido desse fato. Realmente o "ter" e o "parecer" têm grande peso em nossa sociedade, como conta Rubem Alves... explicando que vivemos na sociedade do "parecer". O apelo do ter pode ser observado claramente em nossas campanhas de publicidade, por exemplo nos slogans "Vem ser feliz" ou... "A felicidade mora aqui". Assim como um jogador que quando questionado pelo jornalista, porque prefere morar em um carro importando a comprar uma casa e ele rebate... "Se tivesse uma casa não pegaria tantas garotas como pego com esta Mercedez", haha aparece bem... Abraço!"

    ResponderExcluir