domingo, 18 de março de 2012

Rótulos e Embalagens


Desde criança somos educados através da associação. Associamos uma figura a um nome, um número a certa quantidade, uma pessoa a certa emoção...
Quando crescemos, condicionados, continuamos agindo assim em boa parte do tempo. Quando vemos uma pessoa, nossos pré-conceitos e preconceitos associam a imagem que esta pessoa passa a um determinado tipo de comportamento.
Até aí nenhum problema...
As coisas começam a se complicar quando definimos e limitamos este ser humano a este sentimento primário. Dizem que a primeira impressão é a que fica, e realmente o contato inicial é muito importante, até porque não existe uma segunda chance de deixar uma boa primeira impressão, mas aí rotular a pessoa em função disso pode ser perigoso.
Pior ainda quando começam as generalizações e coloca-se tudo na mesma prateleira.
Resume-se pessoas à sua classe social, ao jeito de se vestir, ao estado civil, à sua etnia (acredito essa ser a pior), e a toda característica que possa formar um grupo, seja ele grande, ou um gueto.
Com isso valoriza-se mais o exterior que o interior.
Hoje o cuidado com a embalagem é muito maior do que com o conteúdo.
É comprovado, compramos produtos pela embalagem.
Mas não consumimos a embalagem!!!
O pacote, o pote, o saco, a sacola, o CORPO... vai tudo pro lixo depois do uso!!!
Em alguns casos, o destino é a reciclagem. Pra outros, nem isso...
Ao comprar pela embalagem, pra consumir o conteúdo, muitas vezes compra-se gato por lebre.
O lindo pacote pode conter algo cujo valor não o acompanha. E vice-versa...
Este conteúdo pode ser deteriorado por fatores externos. Temperatura, odores e umidade, por exemplo, podem estragar o que será consumido em termos de produto.
Quando falamos do indivíduo, uma infinidade de vetores pode contaminar ou enriquecer a alma. Pois tenho pra mim, que ela também pode ser algo perecível... Ou não!
Neste ponto temos escolha!
Podemos deixar a alma envelhecer, acompanhando o corpo, ou prorrogar seu prazo de validade.
Como?
Deve haver mais de um milhão de formas, mas um delas com certeza é não “comprando” pessoas pela embalagem ou pelo rótulo!

terça-feira, 13 de março de 2012

Fronterias


Fronteira s.f. 1) Limite; divisa. 2) Raia, marco, baliza. 3) EXTREMO.
Definições a parte, nos deparamos com fronteiras a cada momento da nossa vida. Vezes sucumbindo a ela, vezes a ultrapassando.
Creio que as mais difíceis de transpor são as subjetivas, as subliminares, as imaginárias...
As fronteiras quando concretas nos permitem avaliar exatamente o tamanho do desafio. Com isso podemos nos planejar adequadamente para enfrentá-las, e decidir se vale a pena o esforço.
Quando imaginárias, as fronteiras podem ser impostas pela sociedade, delimitando o modo de se vestir, a forma de se comportar, entre outras amarras invisíveis que visam a priori, manter o bom convívio entre as pessoas.
Estas correntes intangíveis mudam de uma comunidade para outra, que cercadas cada uma por suas fronteiras concretas, criam dentro dos próprios limites, regras intrínsecas que devem ser seguidas.
Mas gostaria de me aprofundar nas fronteiras de cada indivíduo.
São nossos limites pessoais que nos moldam, e que fazem a interface na relação com as outras pessoas.
Muitas vezes criamos barreiras psicológicas que nos bloqueiam e muitas vezes nos afastam de quem queríamos por perto.
Na Psicologia da Administração conhecemos a pirâmide de Maslow, onde o ser humano deve satisfazer uma hierarquia de necessidades, começando pelas mais básicas que são as fisiológicas, passando pelas de segurança, aceitação social, auto-estima, até chegar ao topo, que é a auto-realização, quando ele busca conhecer e enfrentar os seus limites.
É comprovado que nem todos chegam ao topo, param no meio do processo. Podendo estar satisfeitos com apenas parte de suas necessidades saciadas, ou não estando preparados o suficiente pra continuar o desafio.
Como saciar a necessidade de auto-realização é buscar ultrapassar seus limites, aos que não a alcançam, resta viver dentro dessa clausura psicológica, que pra muitos pode ser confortável.
E o que define nossos limites?
Não tenho autoridade pra isso, mas nesse ensaio de autoconhecimento, me arrisco a dizer que o ambiente onde fomos criados é um grande fator, bem como alguma herança genética, e as experiências que a vida nos traz. Nossas alegrias e realizações nos trazem confiança. Nossos traumas funcionam como uma cancela obstruindo a passagem, e pra muitos é dificílimo encontrar o botão que a faça abrir caminho.
Com isso ficamos reclusos em nosso universo particular, caminhando em círculos com nossas neuroses.
Paradoxalmente, o autoconhecimento é um caminho que leva pra dentro, pro interior, ao início, em direção à nascente do rio, que às vezes insiste em não fluir.
E como essa busca interior é um caminho sem fim, este centro de gravidade do indivíduo, responsável pelo equilíbrio da alma, pode ser um poço sem fundo, um buraco negro que suga toda a energia, se o processo não for bem conduzido.
E como expandir nossos limites?
Primeiramente, sabendo administrar a própria energia. Procurando a manter em níveis ótimos, o que levará ao equilíbrio e a harmonia. Em seguida trabalhando a forma como essa energia se relaciona com a energia dos outros seres vivos, encontrando vidas que possam nessa troca, contribuir para o crescimento mútuo.
E o ápice dessa construção é quando existe o encontro com a parte onde o reflexo é perfeito. A soma das partes se torna maior que o todo, como no conceito yin yang.
Nesses casos, creio que é possível transcender. Gerar uma luz tão forte que não produz sombra.
Desbravar novos horizontes também expande os limites da alma.
Considero-me abençoado por conquistas pessoais e profissionais terem me levado, praticamente sem custo financeiro pra mim, em um intervalo menor que dois anos, para África e Índia. Foi muito rico ter contato direto com os legados de Mandela, Gandhi e Vivekananda. Este último, e não menos importante, só conheci após a chegada na Ásia.
Soma-se a estas, outra viagem prêmio para a Alemanha em 2007. Pude ver um país onde um muro fez fronteira onde antes não existia, e tanto tempo depois de sua queda, ainda são claros os contrastes entre os dois lados.
Que os bons ventos continuem soprando e me levando a lugares como México e Machu Pichu no Peru com suas antigas civilizações, à Grécia e seus filósofos, à Itália e seus gladiadores, ao Egito e suas esfinges, ao Japão e seus samurais, à China e seus mistérios, e de volta à Índia, onde esse ciclo de busca começou e sinto que pra lá deve retornar. Quando estava lá, nos momentos de saudade e de incompreensão das grandes diferenças culturais, eu olhava para o céu noturno.
A escuridão escondia os enormes contrastes em solo, e então eu observava que o mesmo céu cobre a todos nós. Pensava que a mesma lua que nos iluminava refletida no Oceano Índico, em questão de horas, estaria iluminando aos meus queridos no Brasil.
Vivemos numa grande aldeia global, onde as fronteiras dividiram os povos que desenvolveram seu mundo particular, fundado em crenças e costumes próprios.
Hoje os meios de comunicação permitem encurtar distâncias, fazer e manter vínculos onde antes era inimaginável. Havendo o intercâmbio de culturas, e não raro, ruindo com algumas fronteiras.
Mas em alguns casos, ao se delimitar algo, você pode estar concedendo energia ao mesmo. Exemplo disso são as MANDALAS, pois ao se colocar uma linha circular ao redor de um desenho simétrico, muitos acreditam que ali pode estar uma fonte absorvendo e emitindo energia.
Como o autoconhecimento é um caminho em direção ao interior, pra que se busque e encontre uma energia que deverá se enviada ao exterior, é preciso organizar esse fluxo de coisas que fluem em direções opostas.
Logo devemos ir aos EXTREMOS, pra que conheçamos o meio. O ponto de equilíbrio.

sábado, 10 de março de 2012

O Cachorro que Não Ouve o Assobio


É fato que comportamento gera comportamento, parafraseando a lei de Newton onde toda ação gera uma reação.
Entre as incontáveis diferenças observadas no comportamento indiano, durante o mês que vivi na Ásia, uma bem curiosa, em relação ao nosso, foi o fato de que eles não sabem ou não têm o costume de assobiar.
Descobrimos isso por acaso. Estávamos em cinco brasileiros, e durante as palestras que fazíamos sobre o Brasil, sempre brincávamos ao final da apresentação de cada membro, aplaudindo e assobiando alto, externando a tradicional alegria brasileira, que os indianos, carinhosos como sempre, viam com admiração e espanto, pois parecia algo novo pra eles.
O engraçado era que ao final das explanações, aglomeravam-se indianos pra que nós os ensinássemos a assobiar, o que confirmou a teoria de que indiano não assobia.
Mas o mais curioso não foi isso.
Não era tão comum encontrarmos cachorros em meio à diversa fauna urbana da Índia, mas quando isso ocorria, pra nossa surpresa, os cães não atendiam aos nossos assobios!!! Assobiávamos de todas as formas e os danados sequer se moviam! Muito estranho esses animais não se manifestarem pra algo que, ao nosso ver, é nato.
Osho diz em seu comentário sobre o livro Os Sete Vales, que o cachorro já nasce com toda sua “cachorrez”. E pra nós ocidentais um cachorro atender ao assobio é algo instintivo. Existe até apito feito só pra cachorro ouvir. Soa engraçado agora esse apito.
Uma grande sorte foi ter como nosso líder nesta viagem à Índia, o psicólogo Gutemberg Henrique da Costa, a quem hoje tenho como amigo. Nas diversas conversas que tivemos comparando os comportamentos dos povos dos dois países, ele nos falou sobre a teoria do Comportamento Adquirido, exemplificando a diferença entre o cachorro brasileiro que responde aos assobios, e o cão indiano, que ignora, não sabe o que é, pois nunca ouviu.
Pois bem, o ponto que quero abordar nesse post, remete à Caverna de Platão, teoria do filósofo grego que, resumidamente, fala de povos que habitavam cavernas, sem contato com o mundo exterior, e acreditavam que todo o mundo, fosse apenas aquilo que fazia parte do cotidiano dentro dessa espécie de clausura.
Mesmo com todo processo de globalização que vem acontecendo atualmente, ainda vivemos em espécies de cavernas, onde barreiras geográficas, sociais, tecnológicas, culturais, psicológicas e mais uma série de outras, criam um ambiente onde a maioria dos seres que ali habitam crê que o mundo se restringe ao pequeno universo limitado por essas fronteiras.
Vi claramente isso nessa expedição à caverna indiana. Crenças, hábitos, costumes e tradições que só fazem sentido aos que têm raízes em comum, e dão o direcionamento para o convívio em comunidade.
Trazendo essa teoria pro nosso cotidiano, temos nosso comportamento moldado diariamente, muitas vezes sem darmo-nos conta.
No Brasil fomos catequizados desde o nosso descobrimento. Depois nossa forma de colonização esculpiu o povo que somos hoje. E esta construção de identidade nacional é algo contínuo, influenciado principalmente pelas grandes mídias e as religiões. Quando estes dois fatores não se fundem, e passam a atuar em conjunto.
Um exemplo fútil, mas que pode ajudar aos que ainda caminham na superfície a entender melhor é o fato do maior grupo de comunicação brasileiro, a Rede Globo, ter perdido o direito de transmitir as Olimpíadas deste ano, que acontecem em Londres, para a Rede Record.
A Globo direcionou seu espaço de esportes para o UFC e suas lutas marciais, e o nosso tradicional futebol, ignorando nossos campeões olímpicos. Os ídolos e exemplos construídos são Anderson Silva, Minotauro, Vitor Belfort, entre outros lutadores, no lugar de César Cielo, Maurren Maggi, Robert Scheidt, e demais medalhistas.
Não quero fazer juízo de qual esporte é melhor, ou qual idolatria é mais saudável, apenas quero nesse exemplo, mostrar como a mídia influencia nossa cultura.
Comparem a cobertura dada pela Globo aos Jogos Panamericanos do Rio em 2007 e agora ao Pan do México ano passado. Muitos dos leitores devem estar se perguntando: Que Pan do México? Como a grande mídia não cobriu, parece que não aconteceu.
Este pequeno exemplo é pra ilustrar como nossos valores são influenciados pelo ambiente. O modelo ocidental, que já contaminou o oriente, de acumular riqueza e patrimônio, pra galgar posições de destaque social, é alimentado pela indústria da publicidade. Somos convencidos de que os mais felizes são os que têm o melhor carro, a maior casa e a grife mais cara. Mesmo que pra isso algumas vezes tenham que violar os valores de maior valor. É racional uma simples bolsa custar mais que uma casa?
Quero falar dos nossos hábitos de consumo em outro post, mas eles nos criaram e ainda criam dilemas sociais e também estão nos trazendo cada vez mais problemas ambientais.
É muito difícil resistir às tentações do TER. Pra muitos o TER é mais importante que o SER. E o dilema do Hamlet atual muda para: TER ou não TER, eis a questão!
O caminho do autoconhecimento é difícil, pois somos bombardeados a todo momento por estímulos e mensagens que nos alienam.
Mas temos que estar sempre atentos. Alguém pode estar assobiando e nós não estamos ouvindo...